01/10/2021 às 15h54min - Atualizada em 01/10/2021 às 16h06min

"Queria jogar para sempre"

A dois jogos de atingir 100 partidas pela Seleção, Thiago Silva recorda início em 2007, fala de Dunga, Tite, Copa 2014 e longevidade da carreira: "Não adianta gasolina adulterada"

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Imagem: ge.globo.com

Na carteira de identidade, são 37 anos, recém-completados no dia 22 de setembro. Destes, mais de um terço vestindo a amarelinha. Thiago Emiliano da Silva joga há 14 anos na seleção brasileira. O menino de Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro, tinha 23 quando foi convocado por Dunga em 2007 e agora vai se juntar ao grupo que conta com apenas 14 atletas a atingirem a marca de 100 jogos nos 107 anos de história da equipe nacional.

 

Com fixação pela Copa do Mundo no Catar, Thiago pode ser o único zagueiro a disputar quatro Mundiais - 2010, quando ficou no banco, 2014, 2018 e, se tudo der certo, 2022.

 

Caso siga no grupo de Tite, que pode garantir a classificação nesta sequência de outubro com jogos contra Venezuela (7, em Caracas), Colômbia (10, Barranquilla) e Manaus (14, Manaus), o veterano deve pisar no Oriente Médio como jogador mais velho a entrar em campo com a camisa amarela num Mundial - só ficaria atrás de Daniel Alves, que tenta chegar à Copa aos 39.

 

– Eu queria jogar para sempre, cara. Mas a gente não pode, né? – diz, sorrindo, Thiago.

Thiago Silva fala do início, da carreira, dos títulos, das frustrações e da marca de 100 jogos com a camisa da seleção brasileira - ge

Em sua casa na Inglaterra, tendo como cenário uma sala de troféus de deixar com inveja grandes clubes do futebol – com canecos da França, da Itália, premiações de melhor brasileiro na Europa e três vezes eleito para a seleção da Fifa (2013, 2014 e 2015) –, Thiago Silva comentou diversos momentos vividos com a camisa amarela e lembrou da convivência curta, porém marcante com Maldini.

 

No fim de 2008, o garoto Thiago chegava ao Milan para atuar nos seis meses finais de carreira do ídolo rossonero. Mais de uma década depois, o brasileiro se guia nos ensinamentos do italiano e de outros companheiros de carreira longeva em alto nível.

 

– Passei a ter entendimento de que a alimentação era o meu combustível. E não adianta você botar gasolina adulterada que o carro não vai – explicou Thiago.

 

Essa gasolina adulterada atendia, principalmente, pela combinação de biscoito recheado de chocolate com Coca-Cola. Inclusive nas madrugadas. Thiago sorri com essa lembrança. Diz que entrou para o time de Daniel Alves, com salada e alimentação irrepreensível para se manter no topo. Hoje, aos 37, tem menos lesões do que quando era mais jovem.

 

– Claro que hoje eu não tenho a mesma explosão que eu tinha no Fluminense, mas tem coisas que eu não tinha no início e hoje eu tenho muita, que é a experiência. Você corta muito caminho, consegue ler muitas coisas antes delas acontecerem. Naquela época eu corria, mas não pensava. Hoje eu corro menos e penso mais, sabe? Estou com 37 anos, jogando em uma das principais ligas do mundo, num dos maiores clubes, em alto nível.

 

– Isso, de alguma forma, me enche muito de orgulho. De falar, "Thiago, você ama o que faz, você merece tudo que tem porque você se dedica e faz por amor".

 

MISTO DE JUAN E LUCIO

Convocado pela primeira vez depois do corte de Luisão, em agosto de 2007, o então tricolor Thiago Silva voltou a ser chamado por motivo de lesão de concorrente quase um ano depois, em junho de 2008, para substituir o ex-santista Alex, que estava no Chelsea.

 

A estreia foi contra a Venezuela, no segundo tempo da goleada por 4 a 0, na casa da "Vinotinto". Ele substituiu Juan, um jogador em quem ele sempre se espelhou.

 

Na Copa de 2010, Thiago Silva ficou no banco e assistiu a Juan e Lucio, a dupla titular absoluta da seu início de trajetória da Seleção e que o recebeu nos primeiros chamados. Thiago lembra que as brincadeiras com os novatos na primeira convocação (chamada de trote) eram mais formais - quem comandava, em outro tom, era Américo Faria, "com fisionomia de brabo, aquele bigodão", recorda.

 

– Na minha época de Fluminense, na minha primeira convocação, ainda dava umas arrancadas no Campeonato Brasileiro. Cheguei a fazer alguns gols, inclusive um na Arena da Baixada, contra o Athletico, saindo lá de trás, numa arrancada bem estilo Lucio de ser. Outros jogos mais no modelo Juan, um pouco mais sereno, tranquilo, saindo com qualidade boa de trás – recorda.

 

Da primeira Copa ficou a lição de um jogo dominado no primeiro tempo e o primeiro baque pela Seleção. Thiago lembra que o Brasil poderia ter feito "facilmente" 3 a 0 sobre a Holanda, nas quartas de final, mas desmoronou depois do intervalo. A renovação daquele grupo veio a partir da chegada de Neymar, Ganso, Pato e companhia, com o técnico Mano Menezes.

 

Thiago Silva avalia que as mudanças eram essenciais, mas tiveram pouco tempo de consolidação. Afinal, de uma geração para outra saíram de cena - aos poucos ou não - jogadores do quilate de Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Kaká e o próprio Ronaldo, que voltou muito bem ao Corinthians.

 

– Em 2010, éramos eu, Robinho e Daniel Alves os mais novos. Depois da Copa veio muita gente nova, mas fazer preparação para Copa com apenas quatro anos, que não são quatro anos de clube, são quatro anos de seleção, que você não joga muitos jogos. Foi período muito curto de preparação, embora a gente tenha conseguido o êxito de ganhar a Copa das Confederações diante da Espanha, a última campeã mundial, mas a Copa de 2014 com certeza foi totalmente diferente do que a gente tinha passado no ano anterior. E mesmo com esses problemas de jogadores chegando, acredito que a gente, principalmente o Felipão, fez um grupo bem legal para que a gente pudesse disputar. A gente sabia dentro da cabeça de cada um que a gente não era o favorito para ganhar a Copa, mas a gente tinha possibilidade, por jogar em casa, com apoio da torcida, enfim... Acho que até alguns jogos, principalmente na estreia, a gente ganhou pela força do grupo, mas principalmente pelo apoio da torcida – lembrou Thiago.

 

A CABEÇA DE THIAGO

Thiago também tratou de episódios que foram muito falados na trajetória dele com a camisa da seleção brasileira. A Copa de 2014, responsável por catarse emocional que envolveu jogadores, povo e imprensa, marcou fundo o zagueiro, até pelas críticas que recebeu.

 

Capitão do Brasil, Thiago sentou na bola solitário antes da decisão por pênaltis contra o Chile, vencida pelo Brasil. Ele lembra que fazia parte de ritual particular para também pensar no que falar aos companheiros. A imagem de um líder supostamente frágil virou assunto em programas de debate e atravessou o Oceano Atlântico.

 

– "Thiago Silva chora", "Thiago Silva é fraco", é aquilo. Eu não posso ser aquela pessoa tão fraca se faço isso durante minha carreira toda, sabe? Tudo que passei na minha vida, os momentos mais difíceis da minha vida, eu sempre fui muito forte. E aquele momento não era momento de fraqueza, era momento espiritual meu, para que eu pudesse, sei lá, que Deus pudesse colocar coisas na minha cabeça para que eu pudesse fazer o grupo acreditar naquilo. Não adianta falar só por falar – afirmou.

 

– No dia seguinte toda notícia, todo jornalismo falou da fraqueza mental que o Thiago Silva tinha. Voltei para Paris e a imprensa da França falava a mesma coisa. São coisas que as pessoas dizem e, de repente, não por maldade, talvez por não saber que são voz ativa, que formam opiniões.

Thiago tem há dois anos auxílio de um profissional de coaching, com quem conversa e trata do dia a dia, dos desafios profissionais.

 

– Penso e acredito que a partir do momento que você não está feliz, está com algum tipo de problema, as coisas não fluem. Tem uns dois anos que comecei esse trabalho com coaching, com um amigo meu pastor. A gente conversa, antes dos jogos fazemos oração, quando tenho tempo a gente faz realmente um estudo das coisas que vem acontecendo.

 

– A cabeça comanda o corpo, mas ao mesmo tempo erros acontecem dentro do futebol e nem todos eles são porque você está mal de cabeça.

"GRANDE ERRO" DE DUNGA

Thiago Silva está na Seleção desde 2007, mas ficou longe da equipe por quase um ano e meio, entre 2015 e 2016. O responsável pelo afastamento foi o mesmo que deu a primeira oportunidade ao zagueiro com a amarelinha: Dunga.

 

Antes de deixar de ser convocado, ainda em 2014, o zagueiro também perdeu a braçadeira de capitão, que passou a ser usada por Neymar. Tal fase na Seleção é lembrada pelo jogador como a mais difícil.

 

 

Até hoje, o motivo pelo qual deixou de ser chamado pelo técnico não é claro para Thiago Silva:

 

– A gente meio que imagina, porque já passou muito tempo, tem coisas que chegam novas, uns falam uma coisa, outros outras coisas. Mas foi o cara que me levou para a Seleção. Não teria por que eu ter problema com o cara que me levou pela primeira vez para a Seleção. Então acho que o problema foi mais dentro da cabeça dele. Com fatores externos do que propriamente comigo em si – opina.

 

– Acho que foi um grande erro que ele cometeu me deixar de fora, não porque sou eu, mas pela maneira como foi lidada. Não tivemos uma conversa de ele chegar para mim e dizer: "Thiago, não vou te convocar mais por causa disso, disso, disso, você está precisando melhorar isso, isso e isso, enquanto isso você não volta"

Thiago Silva relembra afastamento por Dunga: "Não teve conversa"

Segundo Thiago Silva, nunca houve uma conversa franca entre ele e Dunga para aparar as arestas. O zagueiro, inclusive, se recorda de um episódio em que desagradou o técnico e foi repreendido não por ele, mas por outro membro da comissão.

 

Aconteceu durante a Copa América do Chile, em 2015. O encarregado por Dunga de falar com Thiago foi Gilmar Rinaldi, então coordenador da Seleção.

 

– No final do jogo, passando na zona mista, alguém me perguntou da braçadeira de capitão, se eu tinha ajudado o Miranda ou outro zagueiro, e eu falei: "Logicamente que sim, a partir do momento que a gente sabe quem é o capitão a gente passa a ajudar da melhor maneira possível, dentro de campo, com palavra ou outra". E não foi bem vista (essa declaração) pelo Dunga. E aí o Gilmar vem no meu quarto, tivemos conversa bem tranquila e eu falo: "Gilmar, não falei nada demais, só respondi uma pergunta de um jornalista. Não poderia deixar sem resposta". E não foi situação que falei "Ah, não gostei dele ter colocado fulano como capitão", se eu gostaria de ter sido, outra pessoa. Nada, nada, não falei nada. Só respondi a pergunta que o cara gostaria de saber e o Gilmar falou: "O homem não quer que você fale mais de braçadeira de capitão". Eu falei: "Beleza, não comento mais. Deixa um assessor de imprensa do meu lado e pede para os jornalistas não me perguntarem mais". Ponto – relata o zagueiro.

 

Aquela Copa América realmente não foi fácil para Thiago Silva. Nas quartas de final, diante do Paraguai, ele colocou a mão na bola dentro da área e cometeu pênalti, que gerou o gol de empate do adversário. O duelo foi para os pênaltis, e o Brasil acabou eliminado.

 

Logo após a partida, o zagueiro teve uma atitude da qual se arrepende até hoje:

 

– Cheguei no vestiário, após o episódio, e o Dunga me perguntou: "Thiago, realmente bateu na sua mão?" Eu falei: "Não, não bateu". Então eu menti para ele naquele momento, tanto que ele sai dali, vai para a coletiva e parece que perguntam para ele e ele confirma aquilo que eu tinha falado para ele. Naquele momento com ele eu não fui leal. Foi o único momento que eu me arrependo de ter feito alguma coisa contra ele ou sei lá, que possa ter sido início, um start de uma confusão da cabeça dele.

 

ENTREVISTA EXCLUSIVA

 

Depois da final da Copa América, você fez uma espécie de desabafo direcionado a pessoas que torceram para a Argentina contra o Brasil. Você chegou escrever: "Depois não venham se fazer de amigos pra conseguir seja lá qual for a sua intenção (entrevistas , ingressos para levar filhos e amigos nos jogos , camisas ou fotos)". A quem foi direcionado isso?

– Realmente, foi um desabafo, após um momento triste e várias coisas acontecendo. A gente acabou que, por um impulso do momento, por estar mexendo em internet, essas coisas, aí começou a passar várias coisas na cabeça. Eu acredito que você seja livre pra torcer por quem você queira torcer, mas acho que de alguma forma trair a sua pátria, independentemente de quem esteja do outro lado, até que seja o maior da história - e eu já dei entrevista dizendo que (o Messi) é o maior da história porque foi o que eu vi -, mas eu nunca torceria para o Messi contra a minha seleção, contra o meu país. Então, isso me deixou muito triste, as pessoas podem fazer o que elas bem quiserem de sua vida, mas eu não concordava com aquele momento, então foi um momento de impulso ali. E quando falei de camisa, ingresso, foi realmente direcionado para algumas pessoas que na época de Paris chegavam na cidade e diziam: "Pô, Thiago, hoje tem jogo, posso levar meu filho? Posso ir lá no CT ver um treinamento?" E essas pessoas estavam na torcida da Argentina, então foi para as pessoas direcionadas, e elas sabem, se tem um mínimo de inteligência elas sabem que foi direcionada pra elas.

 

Destes 100 jogos pela Seleção, qual foi o mais marcante?

– Acho que todos os momentos dentro da seleção brasileira foram especiais para mim. Quando pequeno, nem nos meus melhores sonhos eu imaginaria vestir a camisa da seleção brasileira. Eu tinha desejo de virar jogador, sim, mas não da forma como tinha me tornado em 2013, de estar representando meu país, de jogar final da Copa das Confederações, no quintal da minha casa, né? O Maracanã. Eu que sou cria, criado no Rio de Janeiro, na zona oeste, pisando no Maracanã, com toda aquela atmosfera, com familiares, amigos, enfim, foi realmente um dos momentos mais felizes da minha vida. Mas com a camisa da seleção é sempre muito especial você estar dentro de campo, independentemente de braçadeira, acho que o orgulho é maior do que qualquer outra coisa. Com certeza esse dia foi mais do que especial.

 

E a sua melhor atuação?

– Brasil 6 x 2 Portugal, um amistoso em Brasília (em 2008), meu primeiro como titular.

 

Qual foi o melhor parceiro de concentração na Seleção?

– Vou colocar o Maicon. Ao mesmo tempo que ele aparentava ser sério, era um cara muito brincalhão. Embora na Copa de 2010 fossem quartos individuais, a gente só ficava junto, então peguei uma amizade muito grande com ele, acabava que eu só ia para o meu quarto para dormir. Posso dizer que foi um companheiro de quarto que eu tive, um dos mais engraçados. Ele batia no peito: "San Siro, aqui a lateral só tem eu, só o Maicon". Pô, e eu jogava no Milan, era contra ele, né? (risos) Ele metia essas marras pra cima de cima de mim sempre que a gente estava junto. Contra o Paraguai, o atacante era muito grande, eu tentei subir um pouco antes dele, mas como o ombro era muito acima do meu ainda, eu tive que elevar um pouco mais o braço para puxar ele para baixo. E tudo que pensei aconteceu ao contrário. Eu não consegui trazer ele para baixo e ele elevou minha mão para cima. E contra o Chelsea foi a mesma coisa. O Zuma, zagueiro muito grande, tentei pular antes dele para puxar ele para baixo, também não consegui. Se você reparar meu antebraço pega no ombro dele, na hora que ele está subindo, minha mão leva e toca levemente na bola. Para ser bem sincero, acho que o juiz nem viu que a bola bateu na minha mão, porque quando bate na minha mão foi de uma leveza que não tinha nem como o juiz ver. Mas, enfim, pegou tanto que eu não tive nem reação. Embora ele não tenha visto, pegou na minha mão.

 

Thiago Silva fala de lesões e de melhora na alimentação: "Comia muito biscoito"

Quem foi o jogador mais difícil de marcar nesses quase 100 jogos?

– Messi.

 

Na Copa América de 2015 você colocou a mão na bola num lance que acabou sendo crucial, nas quartas de final contra o Paraguai, e depois fez parecido pelo PSG, contra o Chelsea. Ali você estava um pouco triste, algum reflexo da Copa? Era momento mais difícil na carreira?

– Não, não, para ser bem sincero, a Copa foi bem frustrante para a gente. Ouvi e li algumas situações de que "o Thiago estava mal de saúde, estava com..." Qual que era a palavra? Que eu estava com algum problema de cabeça. Eu falava, "pô, o Thiago está com algum problema de cabeça depois de tudo que passei na minha vida para chegar até onde cheguei e está com problema disso, daquilo?" Era uma inverdade incrível que estavam escrevendo e criando na cabeça das pessoas. Consequentemente, depois vêm esses dois fatos, esses dois erros, que realmente foram erros gritantes assim. Mas os dois foram muito parecidos e com a mesma intenção. Não a intenção de tocar na bola, mas com a intenção de um zagueiro de deixar o atacante para baixo. Eu particularmente uso muito esse tipo de situação para subir antes do atacante e com meu antebraço impedir que ele suba e, se ele subir, ele ainda consiga me levar para cima. Então foram as duas maneiras.

 

Como é sua relação com o Neymar? Às vezes, ele é apontado como fominha nas partidas. Você já pediu para ele soltar mais a bola alguma vez?

– Dentro de campo, é um cara que a gente troca muita ideia, a gente se conhece pelo olhar. Quando ele sabe que eu estou bravo, não preciso nem abrir a boca que ele já vira e já sai. Ele já me conhece, é muito tempo jogando junto. Quando a gente está num tipo de jogo em que a equipe adversária está dando muita pancada, e ele é um cara que segura a bola, ele gosta que o adversário venha e encoste nele, que ele cai, dribla, e faz aquele tipo de magia que normalmente ele faz com a bola, mas por vezes os árbitros, no meu modo de ver, não protegem o jogador nesse tipo de situação, acham que ele está ensebando. Mas futebol é isso, é arte, futebol é magia, às vezes protegem quem está batendo em vez de quem está apanhando. Mas, por vezes eu chego nele e falo: "Irmão, toca a bola mais rápido, principalmente quando você está nesse setor do campo, toca de primeira porque o cara já está vindo para te dar no meio, e o juiz não vai dar nada, então você pode ser o prejudicado da situação." De outra maneira chego para ele e falo: "Pô, irmão, acho que não precisava, o cara está te batendo, já solta na seguinte". Sabe, esse tipo de relação a gente tem, a gente é muito aberto em relação a isso, e ele leva super na esportiva, ele escuta muito, embora as pessoas achem que não. Mas é um moleque muito inteligente e sabe quando a pessoa fala pra machucar e fala para ajudar.

 

E com o Tite? Vocês parecem se dar muito bem.

– Eu sou até meio suspeito para falar porque a gente conseguiu ter uma relação muito honesta, muito leal - ele gosta muito de falar essa palavra, lealdade - em tão pouco tempo. Tanto que eu senti que a gente iria se dar bem quando ele assumiu a Seleção. Ele assumiu a Seleção de manhã, eu estava em Miami de férias com a minha família, e o telefone toca. Não sabia quem era, então pedi para a minha esposa atender, porque eu não atendo número desconhecido. Ela atendeu e "ah, é o fulano da seleção". Seleção? Pô, já não faço parte há um ano e meio. Mas eu estava na minha cabeça: "Mudou, mudou o treinador, né?". Eu pego o telefone e é o Tite. Eu falo "oi" e ele "fala, Thiago. Aqui é o Adenor". E eu falei "Adenor?", "É, o Tite". Eu disse: "Misericórdia. Fala, professor. Tudo bem?". Eu já fiquei nervoso aquela hora, já comecei a suar. Aí começamos a trocar ideia, ele me perguntou da minha motivação para voltar para a seleção brasileira, se eu estava disposto. Eu disse "era a ligação que eu estava esperando, estou mais do que motivado para voltar. Me fez muita falta estar fora da seleção brasileira, o senhor pode contar comigo". Ele falou "olha, eu estou te ligando porque conto contigo, mas ao mesmo tempo eu não estou te garantindo convocação, eu não estou te garantindo titularidade e eu não estou te garantindo capitania". E eu falei "professor, fica tranquilo. O que eu mais quero é voltar, eu quero estar aí com vocês. Me fez muita falta isso". Então, só o fato de ele ter me ligado após o anúncio como treinador da seleção brasileira, eu já sabia que a gente iria ter uma liga legal, sabe? De muito respeito, de muita verdade. E hoje eu sou meio suspeito pra falar, porque com certeza, embora eu tenha ali mais ou menos a idade do filho dele, do Matheus, ele é como um pai para a gente, cara.

 

– É um comandante que realmente a gente precisava na Seleção. Eu não falo isso para estar babando ovo ou coisa parecida. É um cara que merece tudo que ele tem na vida dele. É um cara muito verdadeiro, e eu sei que não é fácil para ele fazer a lista de 23 jogadores para a seleção brasileira. Ele é um cara muito humano, ele sente muito quando deixa alguém fora. Eu sei o quanto é difícil e o quanto esse cara é coração pra caramba, sabe? Eu tenho muito orgulho de falar dele, porque a gente tem uma relação muito maneira.

Se imagina levantando a Copa do Mundo no fim de 2022? Seria o desfecho ideal para a sua trajetória na Seleção?

– O meu sonho com certeza é esse, cara. Porque ao mesmo tempo que penso em jogar a Copa do Mundo, eu penso em ganhá-la. Eu não penso em disputar por disputar a minha quarta Copa. Em 2010 - por ser jovem e não pensar como deveria - de repente você pensa "ah, se a gente for eliminado, eu tenho outra Copa". Então foi um pensamento muito errado meu, vou ser bem sincero. Agora não tem mais esse tempo, né? Ou é essa ou é nunca mais. Então eu estou vivendo esse sonho, estou me preparando para isso, espero que a gente possa estar super bem, que a gente possa ter um final diferente do que nós tivemos em 2018. Eu acredito que um dos nossos melhores jogos foi contra a Bélgica, no segundo tempo, e nós fomos eliminados. Então passa várias coisas na cabeça: você estar ali naquele momento festejando e que de alguma forma isso possa ser a coroação da minha carreira. A carreira do Daniel (Alves) também, só falta esse título pra ele. Então seria bem especial de ser vivido, eu estou sonhando muito com esse momento, mas, ao mesmo tempo, trabalhando muito para estar lá.


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