22/03/2022 às 14h13min - Atualizada em 22/03/2022 às 14h13min

Entenda como pastor passou a 'mandar' no Ministério da Educação

Último Segundo
Protagonista absoluto nos relatos de lobby dentro do Ministério da Educação, o pastor Gilmar dos Santos se apresenta como uma das principais lideranças da Assembleia de Deus do país. Em suas redes sociais, ele diz que há 40 anos prega o evangelho e divulga suas aulas de teologia. Mas sua biografia tem muitas facetas, a começar por sua personalidade marcante. São muitos os vídeos em que ele aparece em pregações intensas em que costuma imprimir um estilo mais neopentecostal, midiático e vibrante: em vez do tradicional "o senhor é meu pastor", prefere se referir a "senhor dos exércitos" e enveredar por temas atuais como a invasão da Rússia à Ucrânia, buscando na guerra semelhanças com profecias bíblicas. Na internet, o pastor Gilmar, casado com a pastora Raimundinha e morador de Aparecida de Goiânia — que junto com Goiânia concentra um terço da população de Goiás — se vende como uma potência de fé e boas frases de efeito e mistura milagres com ações políticas focadas nos irmãos em Cristo.

A performance de Gilmar é espetacular. Ele canta, bate no peito, convoca os fiéis a sentirem a chama do Espírito Santo. Seu jeito incendiário de pregar faz com que muitos comentários de seus seguidores sejam postados com emoji de uma chama. Assim, ele se diferencia. Baixinho, de óculos e cabelos cheios mas sempre escovados, Gilmar galgou um dos mais altos postos adminsitrativos da denominação no país. Hoje ele responde pela CONIMADB (Convenção Nacional das Igrejas e Ministros das Assembleias de Deus no Brasil, cuja sede construída recentemente fica no Centro de Goiânia. Ele também traz no currículo o título de diretor do ITCT, um instituto voltado para a formação de líderes religiosos.
Não é para menos que Gilmar funciona como imã para "pregadores e vocacionados", como ele mesmo se refere a iniciantes que querem seguir seus passos. Numa de suas falas, ele grita dizendo que ter fé é como ter desejos intensos: "Primeiro, passageiro do espírito, você tem que desejar. Oh, Deus, a minha alma tem sede de ti, a minha carne te deseja", repete ele olhando para o alto e balançando a cabeça.

Ele é parceiro de evangelização do ministro da Educação, Milton Ribeiro, que aparece em vídeos e em eventos religiosos ao lado de Gilmar. Em um áudio obtido pela Folha de S.Paulo, Ribeiro diz que atende a pedidos de Gilmar e do pastor Arilton Moura para liberar verbas para prefeituras, por orientação do presidente Jair Bolsonaro. Os dois negociariam, desde 2021, benefícios para municípios cujos prefeitos são ligados à igreja. Embora exibam tanto poder na pasta, Gilmar e Arilton não têm cargo no ministério. Intermediações feitas por eles podem garantir a liberação de verbas para a construção de escolas ou quadras esportivas em questão de dias, algo que não é comum na rotina burocrática da administração pública. Muito pelo contrário. É comum a existência de restos a pagar que se arrastam por anos, ou seja, valores empenhados pelos governos que que demoram muito a serem, de fato, liberados. Na gravação vazada, que teria sido feita durante um encontro com Gilmar e Arilton dentro do ministério, Ribeiro diz:

"Porque a minha prioridade é atender primeiro os municípios que mais precisam e, em segundo, atender a todos os que são amigos do pastor Gilmar. [...] Por que ele? Porque foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do Gilmar".
Gilmar expulsa demônios em seus cultos. Muitos seguidores marcam publicações no perfil do pastor no Instagram mostrando isso e quase sempre fazendo elogios. Há detratores também. Em uma das postagens, está registrada a fala de um outro pastor da Assembleia de Deus que admite explicitamente que os prefeitos, para conseguirem a verba, devem se associar a um religioso. E defende seu ponto de vista:

"A verba só vai para o prefeito por intermédio do pedido do pastor da Assembleia de Deus. Então, você, pastor, é o intermediário. É ele que vai ao Paulo e o Paulo vai lá ao prefeito junto com ele. Por quê? Para que o prefeito respeite não só o pastor, mas a igreja (sic) que ele está. O eleitorado que ele está, irmãs, que não é do prefeito, mas são irmãos em Cristo que estão nos apoiando, para que os nossos candidatos continuem trabalhando. Então, amados, é uma coisa sempre muito interessante. Eu tenha andado com eles no interior e vejo. A Marta diz para eles: você quer dinheiro? Então chame um pastor da Assembleia de Deus porque você só vai receber dinheiro através de um pastor da Assembleia de Deus".Gilmar expulsa demônios em seus cultos. Muitos seguidores marcam publicações no perfil do pastor no Instagram mostrando isso e quase sempre fazendo elogios. Há detratores também. Em uma das postagens, está registrada a fala de um outro pastor da Assembleia de Deus que admite explicitamente que os prefeitos, para conseguirem a verba, devem se associar a um religioso. E defende seu ponto de vista:

"A verba só vai para o prefeito por intermédio do pedido do pastor da Assembleia de Deus. Então, você, pastor, é o intermediário. É ele que vai ao Paulo e o Paulo vai lá ao prefeito junto com ele. Por quê? Para que o prefeito respeite não só o pastor, mas a igreja (sic) que ele está. O eleitorado que ele está, irmãs, que não é do prefeito, mas são irmãos em Cristo que estão nos apoiando, para que os nossos candidatos continuem trabalhando. Então, amados, é uma coisa sempre muito interessante. Eu tenha andado com eles no interior e vejo. A Marta diz para eles: você quer dinheiro? Então chame um pastor da Assembleia de Deus porque você só vai receber dinheiro através de um pastor da Assembleia de Deus".
O pastor do vídeo é identificado como sendo o líder da Assembleia de Deus no Brasil, José Wellington Bezerra da Costa, hoje com 87 anos, que apoia o presidente Jair Bolsonaro. Ele é um dos todopoderosos da Assembleia de Deus no Brasil, com cerca de 300 igrejas e seis milhões de fiéis. Três de seus filhos estão na política: o deputado federal Paulo Freire Costa (PL-SP), a deputada estadual Marta Costa (PSD-SP) — possivelmente a quem ele se referia no vídeo sobre intermediar pedido de prefeitos — e a vereadora Rute Costa (PSDB-SP). Procurados pelo GLOBO, os pastores Gilmar Santos e Wellington Bezerra não foram localizados.

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